O ambiente dentro do autocarro é festivo e de convívio, o que dificulta a minha busca pelo silêncio e conforto. Sento-me sozinho. Conto, no entanto, com algumas visitas esporádicas do Vasco, que ainda há pouco aqui acompanhou o Rui numa cantiga ao desafio (demasiado longa na minha opinião). No banco após encontram-se duas raparigas, uma calma e silenciosa, a outra no entanto, tem vindo a impedir-me de raciocinar a escrita desde que se nos juntou em São Pedro do Sul. Tenho pois vindo a mediar a paciência para me impedir de lhe dizer umas quantas palavras menos bonitas. Para além de bater constantemente num tambor (semelhante aos que os indígenas usam para se espantarem uns aos outros), insiste também em cantar e esbracejar de forma irritante. A somar aos “batuques” do tambor, há ainda o som mecânico de um altifalante na parte traseira do autocarro, que lembra os vendedores ambulantes das feiras. A boa notícia é que alguém teve o bom senso de esconder uma pilha desse mesmo altifalante o que, em conjunto com uma breve trégua do tambor, me permite escrever algumas linhas curtas de pensamento.
Escrever num autocarro turbulento, repleto de energia e ansiedade, é um derradeiro teste à minha caligrafia fugaz, uma vez que de mim se apoderam sentimentos difusos que dominam o pensamento e a consciência, recorro ao que ainda me resta de sanidade e começo a escrever.
Desde o início da viagem fui confortado com alguns “sms's” a desejar boa semana da parte dos meus colegas e amigos, foi algo que de certa forma me alegrou o espírito.
O temperamento no autocarro é bastante mutável e os que há pouco exaltavam de alegria, cantando quadras ao desafio, demonstram agora contestação pelo facto de ainda não terem jantado. É uma questão de tempo até pararmos para isso mesmo, mas ainda assim os meus alegres companheiros insistem em relembrar essa necessidade: “O povo quer comer” - cantam.
A minha disposição, até então carregada e sensível, mudou há pouco quando recebi um “sms” que de certa forma fortaleceu a rota da minha viagem, insisto por isso na escrita para recordar e acato o ruído alheio com pouca mas imposta vontade. Os meus auscultadores têm sido os meus melhores amigos até ao momento.
Um agradável jantar nas imediações de um restaurante/hotel permitiu recuperar fôlego e energias e rever algumas caras conhecidas. Durante a noite, e após quase 3 anos, conheci de perto a "menina dos olhos azuis", uma rapariga muito simpática e bem-disposta e com isso resolvi um antigo problema escolar. Apesar de estar ainda a milhares de quilómetros de Taizé, já preconceitos e reservas se começavam a solucionar. Mais tarde, e ainda longe do amanhecer, acompanhou-me uma outra jovem que à semelhança de mim, se sentia incomodada pelas hormonas descontroladas das “pessoas” uns metros atrás. Haverá lugar melhor para descansar do que o espaço vazio ao lado de alguém com o coração ferido? Sobretudo quando em redor o autocarro fervilha com emoção.

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