São 7.16h. A fugaz tentativa de acordar cedo para o acesso à primeira linha de chuveiros fracassou. Não que não tenhamos acordado cedo! O despertador, alegre som mecânico de um telemóvel na cama ao lado, fez-se notar às 7 em ponto, mas no instante seguinte uma voz levantou-se vibrante: “Alvorada!”. Meio a dormir meio acordado, comecei a praguejar o mais alto que um sussurro permite com todos os meus colegas presentes. Barulho a esta hora, não só podia ter-nos causado desconfortos com os professores responsáveis pelas camaratas adjacentes, como despertou efectivamente todos os concorrentes para um bom duche matinal. Como responsável pela camarata onde eu e outros 5 rapazes pernoitamos, tento zelar para que as regras da comunidade sejam respeitadas, e como todos os meus companheiros de camarata estão aqui pela primeira vez, há que ensinar-lhes também alguns truques para lhes proporcionar algum conforto. Depois da breve “instrução matinal”, todos se dirigem para os “cubículos com chuveiro” uns metros de frio adiante e fico mais uma vez a sós com o meu caderno e caneta. Tomei banho ontem pouco depois de ter chegado, o que me permite descansar mais algum tempo no beliche e desfrutar do silêncio agora que todos estão longe. Dentro de breves minutos todos vão regressar, revigorados por um banho que espero, tenha sido quente, para logo começar a confusão que se prolongará até à hora da primeira oração.
Não foi fácil desencantar a localização do encontro das pessoas de contacto, só o consegui graças a alguma manifesta sorte. Cheguei, com cerca de 15 minutos de atraso o que ainda assim não causou estranheza, uma vez que em Taizé todos conhecem as características portuguesas. Uma breve apresentação precedeu a chegada do resto dos jovens com 15 e 16 anos à sala e uma pequena introdução pela parte do irmão aos presentes. Sento-me ao lado deste e entre as pausas de breves frases, tento recordar e traduzir para português o que foi dito. É uma tarefa desgastante e ingrata uma vez que são poucas as palavras em inglês que conheço sobre o tema religião e o ruído da sala confunde as rápidas tiradas de inglês por parte do irmão. Há ainda as contestações daqueles que se acham capazes de traduzir e não gostam do facto de ser eu a fazê-lo (mas nenhum deles se voluntariou para tal na devida altura). Alguns portugueses têm sérios problemas de orgulho, preferem passar uma hora a ouvir um entusiasmado homem falar sobre um qualquer assunto e não entender nada do que é dito, a admitir a necessidade de uma tradução, necessidade que só por si já revela um pouco da sua ignorância.
Comparativamente com o ano passado, os portugueses marcaram aqui presença este ano em bastante maior número. Após ouvir e traduzir todas as palavras e gestos do irmão durante a sua introdução bíblica, este dividiu então o aglomerado de jovens em 14 pequenos grupos com 10 a 15 elementos cada um. Cada um destes grupos foi encabeçado por uma pessoa de contacto, tendo ficado eu com o terceiro grupo. É sempre uma agradável surpresa poder encarar de perto todo o pequeno grupo que te destinam, todos aqueles curiosos e interrogativos olhares daqueles que até ali só te conheciam de vista, no meu caso por ter estado a traduzir. Assim que pararam de chegar novos membros, dei o grupo por completo e apressámo-nos para fora da sala, uma vez que os restantes grupos faziam ali bastante ruído. Assim que delineámos um bom e vago local, aí nos instalámos e procedemos às respectivas apresentações. Inicialmente constituído por 13 elementos; 8 raparigas: 2 portuguesas e 6 alemãs e 4 rapazes: 1 alemão e 3 portugueses, o “meu” grupo apresentou-se mutuamente e após um pequeno escrutínio acerca de cada um e uma posterior análise da passagem bíblica, propus alguns jogos com o intuito implícito de nos conhecermos melhor e estarmos mais “à vontade” dentro do grupo. Seguiu-se uma série de jogos, uns mais bem conseguidos que outros que a meu ver, desempenharam um papel fulcral no futuro do grupo. As duas raparigas portuguesas que tinham estado no meu grupo até então, talvez por se acharem bonitas e espertinhas ou simplesmente por não gostarem das actividades ou do grupo em si, decidiram trocar de grupo com outras duas raparigas bem mais simpáticas e humildes, a Inês e a Rita. Tudo isto aconteceu à margem do meu conhecimento, tendo sido informado já no encontro da tarde, com o grupo. À parte destas duas raparigas, acresceu o abandono de duas outras raparigas alemãs que abandonaram Taizé na manhã seguinte. Foi algo que presenciei e do qual guardo alguma mágoa uma vez que uma delas, e recordo-a como se aqui estivesse, era por muito bonita e tenho pena de não a ter conhecido melhor.
A calma dos cânticos na oração discorda do fulgor e actividade do restante dia. Inconsciente do meu novo horário de trabalho, saí logo após a oração e voluntariei-me para servir as refeições. Acompanhado por vários portugueses e em especial por duas raparigas com quem tantas vezes me cruzei na escola mas apenas tive oportunidade de conhecer em Taizé, a Maria e a Joana, servi vários jovens esfomeados em hora de ponta. Técnica simples, na parte inicial da fila a Maria rapidamente verificava e “carimbava” todas as senhas, a Joana oferecia um tabuleiro e eu provia colher e tigela a todas as almas que por ali passavam. Assim decorreu todo um longo período de muitos “Bom apetites” e “Obrigados” nas diversas línguas, exceptuando algumas esporádicas alterações no discurso em português com fins lúdicos do género: “come boi”. Após servir salchichas e um qualquer legume a uma catrefada de pessoas, lá chegou a minha vez de almoçar e fiz-me acompanhar pela simpática moça que estivera ao meu lado a servir a refeição e por acaso tinha vindo no mesmo grupo de Viseu. Após tudo isto, retomando o que antes dizia, quando finalmente me dirigi ao El Albioth para negociar uma troca de horário de trabalho, era já perto das 14.30h. Apesar das minhas tentativas convictas de expressar em inglês o pedido, e penso ter sido muitíssimo claro, contudo (e ainda me pergunto como), acabei por ser escoltado pela encarregada do meu trabalho diário, indefeso e relutante, até ao local onde ocorre o “Washing-Up”. Lá, esta cedeu-me uma espécie de bata de plástico e aí estive a trabalhar até perto das 15.30h, estava assinado o contrato, já não havia escapatória.
Trabalho concluído e fora de horas como costume, dirigi-me ao local onde havia combinado encontrar-me com o grupo, aí fui informado das trocas e partidas que anteriormente referi, respirei fundo, disse algo, e acompanhei o meu grupo à La Morada para obter a ficha de reflexão destinada pelo irmão para essa tarde. Curiosamente um qualquer sujeito havia já recolhido todas as fotocópias dessa ficha o que nos levou a mudar de planos e ao invés de analisarmos a dita ficha, desfrutámos sim de um resto de tarde no parque, a falar acerca de cada um, dos diversos países e a partilhar experiências, histórias engraçadas… O papel de pessoa de contacto revela-se importante no que toca ao diálogo no grupo, porque nem todos conseguem entender e expressar-se na língua inglesa, o que faz com que haja uma discrepância no grupo e quem, sobretudo as raparigas, se limite a ouvir o que é dito e pouco mais. Aí entra o “chato” do Sérgio, sempre a importunar e questionar aqueles que pouco ou nada dizem, na esperança não só de os tornar mais sociáveis e os desinibir, mas também de criar uma dinâmica e interesse em torno das actividades.
Com o diálogo e partilha criam-se laços e amizades. Nesta tarde em específico tive o prazer de conhecer melhor uma das raparigas alemãs do meu grupo, Alina. Rapariga esbelta e afável, foi desde logo alvo de curiosidade pela minha parte, não só por ser simpática, alta, loura mas também por falar inglês fluentemente, o que me permitiu conhecê-la um pouco melhor relativamente aos outros durante o lanche e jantar que despendi na sua companhia. Fiquei bastante impressionado ao saber que ela é vegetariana há vários anos (algo que me julgo, me ultrapassa) e pratica parapente, (algo que espero poder vir a experimentar um dia). Terminado o jantar em tão agradável companhia, aproveitei o facto da maioria dos “banhistas” estar a jantar para me escapulir e concretizar a ideia reconfortante do banho calmo e quente sem fila de espera. Logo após dirigi-me para a oração da noite, a qual segui sentado no chão do santuário, uma fugaz redacção das vivências do meu dia no caderno de apontamentos. Concluída a escrita apressei-me em direcção ao Oyak onde na companhia de uma cerveja francesa, esperei a companhia da Alina. A noite revelou-se fria e a cerveja a minha única companhia, no meio de um mar de jovens alegres e cheios de vivacidade tento ultrapassar e esquecer, mas ao que parece todas as forças lutam contra a ténue vontade. Após perder esperanças de uma melhor companhia troquei o agreste Oyak pelo conforto da camarata, e o efusivo barulho das brincadeiras pelo reconfortante e calmo som do mp3. Assim que comi algumas bolachas e lavei os dentes cedi ao sono e quando todos os restantes colegas de camarata gradualmente regressaram, estava eu já avançado na noite.


