sábado, 2 de julho de 2011

Segunda-feira, 7 de Março de 2011


São 7.16h. A fugaz tentativa de acordar cedo para o acesso à primeira linha de chuveiros fracassou. Não que não tenhamos acordado cedo! O despertador, alegre som mecânico de um telemóvel na cama ao lado, fez-se notar às 7 em ponto, mas no instante seguinte uma voz levantou-se vibrante: “Alvorada!”. Meio a dormir meio acordado, comecei a praguejar o mais alto que um sussurro permite com todos os meus colegas presentes. Barulho a esta hora, não só podia ter-nos causado desconfortos com os professores responsáveis pelas camaratas adjacentes, como despertou efectivamente todos os concorrentes para um bom duche matinal. Como responsável pela camarata onde eu e outros 5 rapazes pernoitamos, tento zelar para que as regras da comunidade sejam respeitadas, e como todos os meus companheiros de camarata estão aqui pela primeira vez, há que ensinar-lhes também alguns truques para lhes proporcionar algum conforto. Depois da breve “instrução matinal”, todos se dirigem para os “cubículos com chuveiro” uns metros de frio adiante e fico mais uma vez a sós com o meu caderno e caneta. Tomei banho ontem pouco depois de ter chegado, o que me permite descansar mais algum tempo no beliche e desfrutar do silêncio agora que todos estão longe. Dentro de breves minutos todos vão regressar, revigorados por um banho que espero, tenha sido quente, para logo começar a confusão que se prolongará até à hora da primeira oração.
Não foi fácil desencantar a localização do encontro das pessoas de contacto, só o consegui graças a alguma manifesta sorte. Cheguei, com cerca de 15 minutos de atraso o que ainda assim não causou estranheza, uma vez que em Taizé todos conhecem as características portuguesas. Uma breve apresentação precedeu a chegada do resto dos jovens com 15 e 16 anos à sala e uma pequena introdução pela parte do irmão aos presentes. Sento-me ao lado deste e entre as pausas de breves frases, tento recordar e traduzir para português o que foi dito. É uma tarefa desgastante e ingrata uma vez que são poucas as palavras em inglês que conheço sobre o tema religião e o ruído da sala confunde as rápidas tiradas de inglês por parte do irmão. Há ainda as contestações daqueles que se acham capazes de traduzir e não gostam do facto de ser eu a fazê-lo (mas nenhum deles se voluntariou para tal na devida altura). Alguns portugueses têm sérios problemas de orgulho, preferem passar uma hora a ouvir um entusiasmado homem falar sobre um qualquer assunto e não entender nada do que é dito, a admitir a necessidade de uma tradução, necessidade que só por si já revela um pouco da sua ignorância.
Comparativamente com o ano passado, os portugueses marcaram aqui presença este ano em bastante maior número. Após ouvir e traduzir todas as palavras e gestos do irmão durante a sua introdução bíblica, este dividiu então o aglomerado de jovens em 14 pequenos grupos com 10 a 15 elementos cada um. Cada um destes grupos foi encabeçado por uma pessoa de contacto, tendo ficado eu com o terceiro grupo. É sempre uma agradável surpresa poder encarar de perto todo o pequeno grupo que te destinam, todos aqueles curiosos e interrogativos olhares daqueles que até ali só te conheciam de vista, no meu caso por ter estado a traduzir. Assim que pararam de chegar novos membros, dei o grupo por completo e apressámo-nos para fora da sala, uma vez que os restantes grupos faziam ali bastante ruído. Assim que delineámos um bom e vago local, aí nos instalámos e procedemos às respectivas apresentações. Inicialmente constituído por 13 elementos; 8 raparigas: 2 portuguesas e 6 alemãs e 4 rapazes: 1 alemão e 3 portugueses, o “meu” grupo apresentou-se mutuamente e após um pequeno escrutínio acerca de cada um e uma posterior análise da passagem bíblica, propus alguns jogos com o intuito implícito de nos conhecermos melhor e estarmos mais “à vontade” dentro do grupo. Seguiu-se uma série de jogos, uns mais bem conseguidos que outros que a meu ver, desempenharam um papel fulcral no futuro do grupo. As duas raparigas portuguesas que tinham estado no meu grupo até então, talvez por se acharem bonitas e espertinhas ou simplesmente por não gostarem das actividades ou do grupo em si, decidiram trocar de grupo com outras duas raparigas bem mais simpáticas e humildes, a Inês e a Rita. Tudo isto aconteceu à margem do meu conhecimento, tendo sido informado já no encontro da tarde, com o grupo. À parte destas duas raparigas, acresceu o abandono de duas outras raparigas alemãs que abandonaram Taizé na manhã seguinte. Foi algo que presenciei e do qual guardo alguma mágoa uma vez que uma delas, e recordo-a como se aqui estivesse, era por muito bonita e tenho pena de não a ter conhecido melhor.
A calma dos cânticos na oração discorda do fulgor e actividade do restante dia. Inconsciente do meu novo horário de trabalho, saí logo após a oração e voluntariei-me para servir as refeições. Acompanhado por vários portugueses e em especial por duas raparigas com quem tantas vezes me cruzei na escola mas apenas tive oportunidade de conhecer em Taizé, a Maria e a Joana, servi vários jovens esfomeados em hora de ponta. Técnica simples, na parte inicial da fila a Maria rapidamente verificava e “carimbava” todas as senhas, a Joana oferecia um tabuleiro e eu provia colher e tigela a todas as almas que por ali passavam. Assim decorreu todo um longo período de muitos “Bom apetites” e “Obrigados” nas diversas línguas, exceptuando algumas esporádicas alterações no discurso em português com fins lúdicos do género: “come boi”. Após servir salchichas e um qualquer legume a uma catrefada de pessoas, lá chegou a minha vez de almoçar e fiz-me acompanhar pela simpática moça que estivera ao meu lado a servir a refeição e por acaso tinha vindo no mesmo grupo de Viseu. Após tudo isto, retomando o que antes dizia, quando finalmente me dirigi ao El Albioth para negociar uma troca de horário de trabalho, era já perto das 14.30h. Apesar das minhas tentativas convictas de expressar em inglês o pedido, e penso ter sido muitíssimo claro, contudo (e ainda me pergunto como), acabei por ser escoltado pela encarregada do meu trabalho diário, indefeso e relutante, até ao local onde ocorre o “Washing-Up”. Lá, esta cedeu-me uma espécie de bata de plástico e aí estive a trabalhar até perto das 15.30h, estava assinado o contrato, já não havia escapatória.
Trabalho concluído e fora de horas como costume, dirigi-me ao local onde havia combinado encontrar-me com o grupo, aí fui informado das trocas e partidas que anteriormente referi, respirei fundo, disse algo, e acompanhei o meu grupo à La Morada para obter a ficha de reflexão destinada pelo irmão para essa tarde. Curiosamente um qualquer sujeito havia já recolhido todas as fotocópias dessa ficha o que nos levou a mudar de planos e ao invés de analisarmos a dita ficha, desfrutámos sim de um resto de tarde no parque, a falar acerca de cada um, dos diversos países e a partilhar experiências, histórias engraçadas… O papel de pessoa de contacto revela-se importante no que toca ao diálogo no grupo, porque nem todos conseguem entender e expressar-se na língua inglesa, o que faz com que haja uma discrepância no grupo e quem, sobretudo as raparigas, se limite a ouvir o que é dito e pouco mais. Aí entra o “chato” do Sérgio, sempre a importunar e questionar aqueles que pouco ou nada dizem, na esperança não só de os tornar mais sociáveis e os desinibir, mas também de criar uma dinâmica e interesse em torno das actividades.
Com o diálogo e partilha criam-se laços e amizades. Nesta tarde em específico tive o prazer de conhecer melhor uma das raparigas alemãs do meu grupo, Alina. Rapariga esbelta e afável, foi desde logo alvo de curiosidade pela minha parte, não só por ser simpática, alta, loura mas também por falar inglês fluentemente, o que me permitiu conhecê-la um pouco melhor relativamente aos outros durante o lanche e jantar que despendi na sua companhia. Fiquei bastante impressionado ao saber que ela é vegetariana há vários anos (algo que me julgo, me ultrapassa) e pratica parapente, (algo que espero poder vir a experimentar um dia). Terminado o jantar em tão agradável companhia, aproveitei o facto da maioria dos “banhistas” estar a jantar para me escapulir e concretizar a ideia reconfortante do banho calmo e quente sem fila de espera. Logo após dirigi-me para a oração da noite, a qual segui sentado no chão do santuário, uma fugaz redacção das vivências do meu dia no caderno de apontamentos. Concluída a escrita apressei-me em direcção ao Oyak onde na companhia de uma cerveja francesa, esperei a companhia da Alina. A noite revelou-se fria e a cerveja a minha única companhia, no meio de um mar de jovens alegres e cheios de vivacidade tento ultrapassar e esquecer, mas ao que parece todas as forças lutam contra a ténue vontade. Após perder esperanças de uma melhor companhia troquei o agreste Oyak pelo conforto da camarata, e o efusivo barulho das brincadeiras pelo reconfortante e calmo som do mp3. Assim que comi algumas bolachas e lavei os dentes cedi ao sono e quando todos os restantes colegas de camarata gradualmente regressaram, estava eu já avançado na noite.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Domingo, 6 de Março de 2011

É já de manhã. Sento-me o mais confortavelmente que os bancos de “cabedal coçado”  do autocarro permitem, tento improvisar uma mesa com as pernas juntas e regresso à minha história. Na falta da vontade, a obrigação empurra a caneta e traça as palavras que escrevo. A minha consciência diz-me para praticar o vocabulário inglês, tirar o dicionário da mala e dialogar com ele na esperança de obter uma resposta que me conforte a dor. A caneta luta para se livrar da obrigação, o que me obriga a riscar as bordas das páginas para poder continuar. Em volta palpita uma enchente de vozes, dos que jogam UNO, dos que tocam guitarra, dos que interpretam conversas e também dum outro que infelizmente, recuperou a pilha do altifalante.
A França tem tanto tamanho como beleza. Olho a janela e vejo a planície coberta de uma flora simples e verdejante. Uma grande quantidade de lagos para a acumulação das águas e posterior rega dos campos. Aqui e além estranhas árvores, bastante diferentes das que estou acostumado a ver em Portugal. O céu está completamente límpido e deixa resplandecer o brilho morno do Sol acima, cada pedacinho de terra visível está cultivado ou pronto a sê-lo e é constante ver tractores a garantir isso mesmo. Os franceses sabem por certo dar proveito ao que lhes foi concedido, eu peco pelas oportunidades e tempo que desperdicei. Pauso a minha escrita e envolvo-me na paisagem.
Taizé! O regresso a este local indescritível foi acompanhado por um sentimento renovado de alegria e saudade pelos que já aqui estiveram, e por espanto e descoberta daqueles que aqui estão pela primeira vez. Voltar a Taizé é como reencontrar um velho amigo após muitos anos sem o contactar, a espectativa é grande e sempre correspondida.
Depois de retirar todos os pertences do autocarro, eu e os restantes viseenses dirigimo-nos ao ponto de recepção dos portugueses, onde fomos recebidos, primeiro por duas senhoras (que até o inglês mais básico tinham dificuldade em entender) e de seguida por um jovem que nos encaminhou para dentro do santuário e nos explicou, num português rebuscado, as regras básicas e o funcionamento da comunidade de Taizé. De seguida travei uma complicada batalha para conseguir definir o meu trabalho (todos os jovens com 18 ou mais anos têm obrigatoriamente que ter uma tarefa diária na comunidade), uma vez que a maioria das tarefas era de horário incompatível ao meu horário de pessoa de contacto. Após largos minutos a tentar explicar ao alemão encarregue de distribuir as tarefas a minha situação, lá fiquei incumbido de (e isto só vim a saber mais tarde), em conjunto com mais 10 jovens, lavar tachos, panelas, tabuleiros e tudo o mais que apareça na cozinha depois da hora de almoço no El Albioth. Ocupações definidas faltava ainda escolher a camarata na qual ficar, o que sucedeu logo de seguida tendo ficado responsável pela camarata 155. Desempacotar a bagagem na camarata, breve duche e jantar seguido pela oração da noite.

  A oração de Taizé conforta e cura, é algo precioso. Sobretudo depois de um típico ano português, conflitos, irresponsabilidades políticas, meios de comunicação sensacionalistas, vícios e hábitos incorrectos, tensões familiares e sociais, dissabores e feridas, um incontável número de problemas mais ou menos importantes, todos eles encontram cura em Taizé. Aqui o tempo é um factor preponderante. Tempo para nos encontrarmos, avaliar os actos passados e pensar em futuras decisões acertadas. Tudo isto, juntamente com o que as palavras não permitem contar, é o que cada um leva de Taizé quando regressa a casa e ao maior dos males, a rotina.
A última oração do dia acabou há instantes. Encontro-me agora no chão, envolvido por pessoas que entoam o mesmo cântico suave. Grande parte dos jovens já está no Oyak ou recolhido nos camarotes a descansar, no entanto, há ainda muitos que trocam de bom grado a festa ou o beliche pela permanência aqui no santuário, a pensar, cantar ou escrever. Neste preciso momento, um dos raros cânticos portugueses ecoa no interior do santuário. É engraçado admirar a dificuldade de quem não fala o meu idioma, para cantar em português, lembram-me o sotaque dos imigrantes ucranianos em Portugal.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Sábado, 5 de Março de 2011

O ambiente dentro do autocarro é festivo e de convívio, o que dificulta a minha busca pelo silêncio e conforto. Sento-me sozinho.  Conto, no entanto, com algumas visitas esporádicas do Vasco, que ainda há pouco aqui acompanhou o Rui numa cantiga ao desafio (demasiado longa na minha opinião). No banco após encontram-se duas raparigas, uma  calma e silenciosa, a outra no entanto, tem vindo a impedir-me de raciocinar a escrita desde que se nos juntou em São Pedro do Sul. Tenho pois vindo a mediar a paciência para me impedir de lhe dizer umas quantas palavras menos bonitas. Para além de bater constantemente num tambor (semelhante aos que os indígenas usam para se espantarem uns aos outros), insiste também em cantar e esbracejar de forma irritante. A somar aos “batuques” do tambor, há ainda o som mecânico de um altifalante na parte traseira do autocarro, que lembra os vendedores ambulantes das feiras. A boa notícia é que alguém teve o bom senso de esconder uma pilha desse mesmo altifalante o que, em conjunto com uma breve trégua do tambor, me permite escrever algumas linhas curtas de pensamento.
Escrever num autocarro turbulento, repleto de energia e ansiedade, é um derradeiro teste à minha caligrafia fugaz, uma vez que de mim se apoderam sentimentos difusos que dominam o pensamento e a consciência, recorro ao que ainda me resta de sanidade e começo a escrever.
Desde o início da viagem fui confortado com alguns “sms's” a desejar boa semana da parte dos meus colegas e amigos, foi algo que de certa forma me alegrou o espírito.
O temperamento no autocarro é bastante mutável e os que há pouco exaltavam de alegria, cantando quadras ao desafio, demonstram agora contestação pelo facto de ainda não terem jantado. É uma questão de tempo até pararmos para isso mesmo, mas ainda assim os meus alegres companheiros insistem em relembrar essa necessidade: “O povo quer comer” - cantam.
A minha disposição, até então carregada e sensível, mudou há pouco quando recebi um “sms” que de certa forma fortaleceu a rota da minha viagem, insisto por isso na escrita para recordar e acato o ruído alheio com pouca mas imposta vontade. Os meus auscultadores têm sido os meus melhores amigos até ao momento.
Um agradável jantar nas imediações de um restaurante/hotel permitiu recuperar fôlego e energias e rever algumas caras conhecidas. Durante a noite, e após quase 3 anos, conheci de perto a "menina dos olhos azuis", uma rapariga muito simpática e bem-disposta e com isso resolvi um antigo problema escolar. Apesar de estar ainda a milhares de quilómetros de Taizé, já preconceitos e reservas se começavam a solucionar. Mais tarde, e ainda longe do amanhecer, acompanhou-me uma outra jovem que à semelhança de mim, se sentia incomodada pelas hormonas descontroladas das “pessoas” uns metros atrás. Haverá lugar melhor para descansar do que o espaço vazio ao lado de alguém com o coração ferido? Sobretudo quando em redor o autocarro fervilha com emoção.

Sexta- Feira, 4 de Março de 2011

Olá Matilde!
Provavelmente quando leres este texto que te escrevo, estarei eu a mais de 5000km de distância de ti…
Escrevo, porque sou demasiado cobarde e inseguro de que te conseguisse dizer tudo isto por palavras faladas de uma só vez, nem com a perfeição com que só um texto pode ser lido.
Escrevo-te para me permitir aliviar algum peso da consciência e resolver finalmente o problema que o causou. Dizer-te antes de mais, que gosto de ti mais do que algum amigo deveria gostar, e que tenho sofrido com esse sentimento que tentei em vão reprimir. Passei demasiado tempo escondido atrás de jogos, de um “eu” virtual, e mais recentemente, quando pus fim a essa fase, descobri algo completamente novo, algo que os jogos são incapazes de transmitir.
Tentei aproximar-me então de ti. Tarefa árdua e ingrata para alguém que como eu, sempre viveu escondido atrás de um ecrã. Tu não facilitaste ou sequer permitiste. De um lado o tímido rapaz dos computadores, do outro, a rapariga intocável (algo que eu admiro em ti), sem quaisquer formas de se lhe aproximar.
A escola não nos ensina aquilo que realmente importa saber, isso há que o aprender por nós mesmos. No meu caso, a escola não me ensinou a comunicar com as pessoas que realmente gosto, dizer-lhes o quanto eu preciso delas, isso é algo que terei de aprender sozinho.
Sem o “à vontade” da maioria dos rapazes, e contigo sempre demasiado distante, a minha tarefa tornou-se um quanto impossível. Tentando sempre esconder de ti o que sinto, lentamente, aproximei-me, sempre que a pouca coragem ia surgindo. Porém por muitas tentativas minhas de a ti chegar, fracassei.
O tempo trouxe-me a dúvida e a lucidez. Talvez por medo de me magoar ou incredulidade de que tu pudesses algum dia vir a gostar de mim, desisti e recostei-me no meu canto a procurar entender. Percebi que as histórias nem sempre têm um final feliz, que os contos de fadas não passam de contos, e que por vezes a melhor maneira de continuar, é desistir. Percebi que eu e tu não ouvimos a mesma música.
Em desespero de causa escolhi o caminho menos mau, esquecer-te. Cedo me apercebi que para o conseguir, precisava ainda de te contar, não só para que percebas as minhas atitudes de agora em diante, mas também para que me compreendas e não compliques as coisas. Contar tornou-se mais fácil assim que decidi esquecer e por isso o faço. Esquecer no entanto, sempre me soou difícil.
Difícil porque passo o grosso da minha semana fechado numa sala com a pessoa de quem gosto, difícil, porque fico inquieto cada vez que oiço o teu nome ou cruzo o teu olhar, difícil porque me deixei apaixonar. Lembrei-me então de Taizé, uma semana longe de ti e de Portugal, uma semana onde não mais irei ouvir o teu nome nem cruzar o teu olhar, uma semana que tentei incluir nos teus planos. Para que percebas, o “eu” que tento mostrar a quem me rodeia, o rapaz quase sempre alegre e relaxado, não mostra o que realmente sinto, não explica a minha verdade. Muitas das vezes ajo infantil e inconsequente, tenho muito que aprender. Taizé já me moldou anteriormente e espero repetir o feito, para que volte mais leve e possa voltar a olhar-te nos olhos sem medo de te voltar a amar.
Faltava ainda assim contar-te esta história, para assim cumprir o passado, e dar-te tempo para pensares no futuro. Não tenciono afastar-me, consigo lidar com a nossa amizade e sei de antemão que voltarei melhor do que quando parti. És uma rapariga especial, em todos os aspectos, espero que um dia encontres alguém de quem realmente gostes e quando isso acontecer, fica o conselho, mostra-lhe o que sentes para que possas ser correspondida.
Termino e sinto-me melhor do que quando comecei, a parte boa da história é o facto de ter crescido imenso e aprendido o que só a experiência me poderia ter ensinado. Agora só falta a parte mais difícil.
Desculpa ter-te feito ler algo tão rebuscado, não dês demasiada importância ao assunto, no fundo, não passo de mais um miúdo de Ribeiradio que te fez ler um texto aborrecido, algo que não se repetirá. Estuda muito e boas férias de Carnaval!


Nota do Autor

Desde sempre me questionei sobre a razão de ser de um blog. Em certa ocasião a vida decidiu esclarecer esta minha questão quando tive oportunidade de contactar de perto com um blog, descobri então, que este tipo de escrita se trata de uma marca da pessoa que o escreve, algo que essa pessoa quer partilhar com outros e ou consigo mesma.
Nada mais é do que uma carta em permanente actualização, um pedaço de papel virtual onde o autor expõe as suas preocupações e experiências do dia-a-dia.
Essa regra aplica-se a este mesmo blog, que caracteriza as experiências vividas por mim num local denominado Taizé. Uma série de memórias traduzidas em palavras que aqui vou recordar e ainda tentar descrever o que senti e sinto em relação a esta viagem.
Numa outra vertente que complementa esta fase da minha vida, procuro descrever a forma como este local magnífico me ajudou a curar uma "ferida" que carreguei comigo durante demasiado tempo, algo ao mesmo tempo belo e triste, o amor não correspondido.
Serão estes os conteúdos desta "carta em permanente actualização", a qual escrevo na esperança de um dia vir a poder partilhar com filhos e netos, recordar o passado e construir o futuro, confiante de que nessa altura ainda exista Taizé e todos os valores humanos lá presentes, que me tornaram uma pessoa melhor.
Como diria o padre, "Fica a promessa de voltar".

Tudo o que aqui escrevo é da minha  própria autoria, contudo, por uma questão de privacidade, os nomes apresentados no decorrer do blog, à excepção do meu, são todos eles fictícios.