É já de manhã. Sento-me o mais confortavelmente que os bancos de “cabedal coçado” do autocarro permitem, tento improvisar uma mesa com as pernas juntas e regresso à minha história. Na falta da vontade, a obrigação empurra a caneta e traça as palavras que escrevo. A minha consciência diz-me para praticar o vocabulário inglês, tirar o dicionário da mala e dialogar com ele na esperança de obter uma resposta que me conforte a dor. A caneta luta para se livrar da obrigação, o que me obriga a riscar as bordas das páginas para poder continuar. Em volta palpita uma enchente de vozes, dos que jogam UNO, dos que tocam guitarra, dos que interpretam conversas e também dum outro que infelizmente, recuperou a pilha do altifalante.
A França tem tanto tamanho como beleza. Olho a janela e vejo a planície coberta de uma flora simples e verdejante. Uma grande quantidade de lagos para a acumulação das águas e posterior rega dos campos. Aqui e além estranhas árvores, bastante diferentes das que estou acostumado a ver em Portugal. O céu está completamente límpido e deixa resplandecer o brilho morno do Sol acima, cada pedacinho de terra visível está cultivado ou pronto a sê-lo e é constante ver tractores a garantir isso mesmo. Os franceses sabem por certo dar proveito ao que lhes foi concedido, eu peco pelas oportunidades e tempo que desperdicei. Pauso a minha escrita e envolvo-me na paisagem.
Taizé! O regresso a este local indescritível foi acompanhado por um sentimento renovado de alegria e saudade pelos que já aqui estiveram, e por espanto e descoberta daqueles que aqui estão pela primeira vez. Voltar a Taizé é como reencontrar um velho amigo após muitos anos sem o contactar, a espectativa é grande e sempre correspondida.
Depois de retirar todos os pertences do autocarro, eu e os restantes viseenses dirigimo-nos ao ponto de recepção dos portugueses, onde fomos recebidos, primeiro por duas senhoras (que até o inglês mais básico tinham dificuldade em entender) e de seguida por um jovem que nos encaminhou para dentro do santuário e nos explicou, num português rebuscado, as regras básicas e o funcionamento da comunidade de Taizé. De seguida travei uma complicada batalha para conseguir definir o meu trabalho (todos os jovens com 18 ou mais anos têm obrigatoriamente que ter uma tarefa diária na comunidade), uma vez que a maioria das tarefas era de horário incompatível ao meu horário de pessoa de contacto. Após largos minutos a tentar explicar ao alemão encarregue de distribuir as tarefas a minha situação, lá fiquei incumbido de (e isto só vim a saber mais tarde), em conjunto com mais 10 jovens, lavar tachos, panelas, tabuleiros e tudo o mais que apareça na cozinha depois da hora de almoço no El Albioth. Ocupações definidas faltava ainda escolher a camarata na qual ficar, o que sucedeu logo de seguida tendo ficado responsável pela camarata 155. Desempacotar a bagagem na camarata, breve duche e jantar seguido pela oração da noite.
A última oração do dia acabou há instantes. Encontro-me agora no chão, envolvido por pessoas que entoam o mesmo cântico suave. Grande parte dos jovens já está no Oyak ou recolhido nos camarotes a descansar, no entanto, há ainda muitos que trocam de bom grado a festa ou o beliche pela permanência aqui no santuário, a pensar, cantar ou escrever. Neste preciso momento, um dos raros cânticos portugueses ecoa no interior do santuário. É engraçado admirar a dificuldade de quem não fala o meu idioma, para cantar em português, lembram-me o sotaque dos imigrantes ucranianos em Portugal.

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